quinta-feira, 30 de maio de 2013

De longe avisto um grande homem. Aos poucos ele vem se aproximando até que chega bem perto de onde eu estava. Seu corpo reluzia como o sol, e vestia roupas azuis e um grande chapéu cobria-lhe o rosto. Não era possível observar sua face, pois a luz não permitia tal façanha. Eu estava completamente encantada e queria saber mais sobre aquele ser surreal. Não precisei fazer nenhum esforço, quando me dei conta, ele já estava perto de mim.
De imediato perguntei-lhe o nome e ele me respondeu de forma categórica:

-Chamo-me Sonho.

. Pelo tom de voz parecia muito sério. Disse que veio de muito longe apenas para falar-me e que estava descontente com minhas atitudes. Sem entender, perguntei o que eu tinha feito para magoá-lo já que nem o conhecia. Eu estava estarrecida como o nome tão incomum e em fração de segundos meus pensamentos foram interrompidos. Ele falava com toda calma e complacência que poderia existir num homem.

- De onde longe vim para alertá-la sobre suas atitudes. Há anos tenho observado-te e assim como todos neste mundo, mas em especial me interessei por ti.

Não conseguia entender. Ele prosseguiu:

- Vejo que tens desacreditado em meu poder. Vejo que tens desistido de mim. Por isso vim procurá-la.
- Não vejo motivos. Não o conheço. O senhor deve estar equivocado.

Devagar, o moço reluzente levantou-se e parou diante de mim. Seu corpo era grande e forte como de um atleta. Começou a falar e pude perceber sua desenvoltura que mais parecia de um cavalheiro.

- Menina, eu sou o sonho. Eu sou o que tu perdestes. Sou o que tu abandonastes e jogastes  fora. Sou o sonho. O sonho que todos precisam ter para prosseguir.

De repente, como se nada mais pudesse acontecer, vejo ao meu lado uma moça. vestia preto e tinha longos cabelos escuros e lisos. Seu rosto também brilhava, mais a luz era mais escura. Um roxo mais profundo. Também não conseguia ver a face, pois estava encoberta.

Ela sorria e começou a falar num tom de deboche;

-Desista, sonho. Tu perdeste. Tu desixastes de existir há muito tempo.
- Desilusão, o que faz aqui? - esbravejou Sonho

Ainda rindo, Desilusão começou a alfinetá-lo.

- Quem neste mundo há de sonhar? Veja como tudo está! Não existe esperança, o mundo está perdido e nada vai mudar isso. Para que sonhos? Para que tê-lo?. Devo admitir que só existo por causa de você. Sou a consequência de sonhos que não puderam ser realizados, de planos frustrados, mentiras, enganações. É estúpido querer que as pessoas o busquem. Tu és apenas um sonho e por muitos é destruído com grande facilidade. Uma ilusão! - Falava desilusão.

- Não fale besteira, sua tola. O que seria do mundo sem mim?! Não existiria. Eu não posso morrer porque todos dependem de minha existência. Sou a origem de tudo de bom que há na terra. A vida advém de mim, pois, não há quem viva sem sonhar. Não há quem exista se no fundo da alma não tenha sonhos, mesmo que estejam desacreditados.

No meio desse bombardeio filosófico, fiquei tonta. Quem são essas pessoas como nomes estranhos. O que querem de mim?!

- Olha... eu não sei quem são vocês e sinto muito intrometer, mas não posso ficar mais. Tenho que ir para a casa... já está tarde... vocês entendem?

Como se nada pudesse ficar mais entranho, tudo a minha volta começou a rodar e em fração de segundos, desmaiei.
Quando acordei, estava num campo cheio de árvores e flores coloridas. O céu estava azulado e a paz reinava no lugar. Havia uma trilha com pedrinhas amarelas como ouro, mas mesmas reluziam. Era um espetáculo! Um sonho!
Levantei e dei de cara com o Sonho. Ele estava próximo a um lago. Virou-se para  mim na mesma hora e sorriu. Eu conseguia ver seu rosto e sem saber como, consegui reconhecê-lo.

- Onde eu estou? O que estou fazendo aqui?
- Tu estás numa viajem e precismo mostrar algumas coisas para ti.

Dizendo isso, pegou minha mão e me levou calmamente pelo rastro de pedrinhas. Suas mãos eram muito geladas, mas tinham um toque acolhedor. Estava cantarolando e senti vontade de cantarolar junto. Tudo era tão lindo. Eu não tinha vontade de sai daquele lugar.

- Qual teu nome, perguntou-me.
- Macele - respondi.
-Quantos anos tens , Marcele?
- Tenho 14 anos.
- Hum - ficou quieto e pude ver a expressão de preocupação que estava em seu rosto.- Você é uma menina muito nova. É  a primeira vez que converso com alguém tão jovem.
- Por que? - perguntei sem entender.
-Porque as crianças são as que mais sonham. Elas acreditam, tem fé até no que só existe na cabeça delas. Jamais perdem a esperança.
-Então você me trouxe por que eu desacreditei nos sonhos?

Ele me olhou com uma expressão estranha e disse:
- Somente por isso busquei por ti. Vou contar-lhe uma história muito antiga. Sente-se.

Sentei na grama que estava úmida e muito verde. Sonho sentou diante de mim e começou a contar. A história era de uma menina que aos nove anos perdeu seu pai. Sua mãe era uma mulher muito malvada e colocou o amante e seus dois filhos para dentro de sua casa logo após a morte de seu pai. A menina foi escravizada, estuprada. Não tinha a quem recorrer e vivia triste, mas nunca perdeu os sonhos. Apesar de tudo, ainda acreditava nas pessoas, no amor. Queria ser médica e ajudar o próximo. Em nenhum momento deixou de sonhar, passava os dias pelos cantos, mas sempre estava feliz e sua família não entendia. Até que os anos foram passando e apareceu uma oportunidade de fazer uma prova. Escondida de sua mãe, a menina   fez o teste e semanas depois saiu o resultado: Ela passou e ia estudar em outro estado. Contava agora 18 anos e realizou o sonho de fazer medicina. Ainda sim, sempre ajudou sua mãe, até que o padastro morreu e a menina buscou a mãe e a levou para a cidade grande, onde cuidou dela com todo amor. Sem nenhum ressentimento.

- Isso é bobagem. E além do mais, acredito que as dificuldades possam trazer forças para a pessoa arriscar. Pois, era a única oportunidade que ela tinha. Não podia desperdiçá-la.

- Já que disse isso, por que perdeu a tua? Por que deixaste de acreditar em mim? Eu sou a força que salva. Não sou apenas uma ilusão, tenho o poder de mudar...

Como o cara dia o dom de persuadir. Já estava ficando confusa quando declarei:

- Deixei de sonhar porque só tive sofrimento e dores. Perdi minha mãe, não tenho mais ninguém neste mundo. Fui lançada na rua, sofri todos os tipos de horrores. O que há para sonhar?  Qual esperança posso ter? Não tenho saída. Eu sou humana e nem sempre sei aonde ir, qual decisão tomar. - As palavras saiam da minha alma como uma enxurrada. As lágrimas ousaram a cair e perdi totalmente o controle.

Sonho com toda calma do mundo aproximou-se de mim, tocou minha face e secou minhas lágrimas. Desde a morte da minha mãe nunca ninguém demonstrou tal afeto. Muito calmo como sempre ele disse:

-Todo homem, lá no fundo, sabe o que é certo e errado. Todos nós temos uma bússola que aponta para a mesma direção. Seu futuro e o que queres para ti será fruto de sua decisão hoje. Quando nascemos não escolhemos a vida que teremos, não temos a oportunidade de comandá-la, pois não temos o controle. Somos jogados neste mundo e estamos suscetíveis a passar por todas as desavenças, mas, Deus nos deixou os recursos de ainda poder acreditar, ter fé, sonhar e ter esperança de que tudo pode ser melhor. Se paramos para pensar, todos têm motivos para deixar de amar e crer, mas imagine o que seria de nós se nos faltasse isso.

Falando isso, afastou-se e completou:

-Tenho que partir. Lembre-se que as suas escolhas são os primeiros caminhos que tu deves percorrer e precisarás de muita fé e luta para conseguir alcançar o que almeja. Tu não precisas continuar onde estás, basta apenas fazer tudo diferente.

Aos poucos sua luz foi ficando fraca. Quem será esse homem que me trouxe para tal lugar, que afastou de mim a desilusão. Por que me destes tantos conselhos. Chorando e com raiva, gritei:

-QUANDO EU FOR EMBORA MINHA VIDA VAI CONTINUAR A MESMA!

Não adiantou, o homem já tinha partido.
Tentei voltar para casa, mas eu não sabia o caminho. Andei por horas, estava em outro mundo, cansada e as palavras daquele homem não saiam da minha cabeça. "Você pode fazer tudo diferente" . Estava cansada e com fome, perdi minhas forças para caminhar e encostei-me numa árvore, aos poucos peguei no sono e não vi mais nada.
Eu sei, alguma coisa me diz, que quando eu acordar tudo será diferente. A vida continuará a mesma, mas minhas atitudes serão outras. Certas problemas são resolvidos quando saímos da posição de vítima e nos colocamos como o senhor da situação.



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